A Cola do “Vidro” de Shyamalan – Crítica detalhada e repensada

Vamos à uma análise detalhada e repensada de um dos filmes mais aguardados pelos cinéfilos de plantão. Do diretor M. Night Shyamalan, Vidro.

Título Original: Glass

Direção: M. Night Shyamalan

Elenco: Bruce Willis; Samuel L. Jackson, James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Sarah Paulson, Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard

NOTA: 3,9/5

Em janeiro de 2019 chegou ás telas o fechamento da trilogia Eastrail 177, como é conhecida pelos fãs. Totalmente roteirizada, co-produzida e dirigida por M. Night Shyamalan, o filme vem com a premissa de ligar as histórias de Corpo Fechado (2000) e Fragmentado (2017) e dar a continuação para os eventos desses, mesmo que, só fomos descobrir que Corpo Fechado teria uma sequência, 17 anos depois do lançamento, ao sermos surpreendidos com a citação ao Sr. Vidro na cena final de Fragmentado. O texto abaixo pode conter spoilers, continue por sua conta e risco.

Claramente, diferente do primeiro filme, Vidro tem uma característica de filme mais popular além de ter melhorias consideráveis em edição e efeitos (mas temos que levar em conta que se passaram 19 anos e desde então, muita coisa evoluiu) e também temos que considerar que, ninguém imaginava que Fragmentado estaria na mesma linha criativa de C.F. então o filme da maneira que foi divulgado, pedia para ser algo mais blockbuster.

Mas isso não quer dizer que o final da trilogia se distancie muito do seu ponto inicial, pois a premissa original dele está ali, isso só evoluiu para se adequar em padrões que, ao meu ver, são benéficos para o lucro mas sem estragar a visão do diretor.

Uma das características do Shyamalan muito presentes nesse filme é a trilha sonora, os acordes no piano, tocados principalmente nas cenas do David, lembram muito os usados em C.F. e até no filme Sexto Sentido (1999).

A interação dos personagens nesse filme é sensacional, com destaque para o David e o Joseph, usando de pontos cruciais da relação deles para construir a narrativa: no primeiro filme, o climáx foi David acreditando no seu filho, o que construiu a identidade dele como o Protector (um dos codinomes do herói), nesse desfecho, vemos o quanto é importante que os papéis se invertam, pois a crença de Joseph é fundamental para não só motivar o pai a encontrar a Fera, mas para que ele não hesite nem por um momento em acreditar no que ele é. E o garoto se mantém firme nisso até o final. As cenas do McAvoy e da Anya também são muito bonitas, trazendo o lado sentimental da garota (que na minha opinião desenvolveu Síndrome de Estocolmo, porque não é possível aquele tipo de afeição) e do que ela significa não só para uma, mas para todas as personalidades dele: ela é a âncora para manter os lados “bons” dele na luz.

Não vou mentir: esperava mais das participações do Elijah e das interações dele com os outros personagens, eu entendi o impacto que ele teve nas cenas finais e a atuação do Samuel L. Jackson não decepciona, mas afinal, o filme leva o nome dele, eu esperava que se tratasse mais do que apenas ele fazer o conflito entre o David e a Fera acontecer e a revelação dos heróis para o mundo (que sempre foi o grande desejo do personagem, no final das contas), mas alguém tão complexo merecia mais tempo em tela. Se explorassem pelo menos 5% mais do passado e das motivações dele, além da relação com a sua mãe, o filme faria jus ao nome, porque o personagem é de arrepiar.

Uma das maiores falhas do filme foi o jogo de luzes que utilizaram nas cenas do quarto do hospital enquanto o McAvoy fazia a troca de personalidades: para prevenir que uma das personas violentas assumissem, havia luzes que incentivavam essa troca no quarto, sendo disparadas cada vez que houvesse risco. A sequência foi montada da seguinte forma: mostra personalidade raivosa; foca na luz disparando e na hora que a câmera volta a focar no rosto do James, outra personalidade já assumiu o lugar. Não ficou um plano ruim, só estou dizendo que seria ainda mais sensacional para valorizar a atuação dele e o plano de filmagem, se capturassem também o rosto dele na hora que ocorre a troca de personas, porque acredito que grande parte do público entende essa troca de personalidade, mas tem dificuldade de visualizar os primeiros momentos dela ocorrendo, justamente por filmes e séries que retratam isso mostrarem apenas quando já aconteceu.

Ademais, o final foi interessante, porém clichê, definitivamente não o ponto alto da criatividade do roteirista, não foi de nos deixar com queixos caídos após a revelação da real identidade da personagem de Sarah Paulson, pois podemos chamar esse final de até previsível, mas se não tivesse uma reviravolta no final que nos faz questionar o filme inteiro não seria um filme do Shyamalan, a atuação da Sarah Paulson acabou ficando um pouco apagada (ela é uma atriz incrível, mas nesse filme particularmente não teve seus melhores momentos na dramaturgia) e as cenas de ações acabaram simplistas e padrões demais, algo que eu encaro particularmente nas características do diretor, pois ele sabe construir ótimos suspenses, mas pelo visto não cenas de ações. Entretanto, é um filme que entrega o que foi prometido, e em alguns pontos particulares, principalmente para aqueles que conhecem as visões e propostas do diretor, chega a surpreender o expectador mais atento.

O filme está com uma classificação de 5.1/10 no Rotten Tomatoes, 36% da aprovação da crítica e 75% de aprovação da audiência.

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Lais Alves

19 anos, se esforçando pra sobreviver em uma dessas cidades tumultuadas de São Paulo e tentando ser poliglota. Quer muito ser cinéfila, mas o interesse nos blockbusters acaba atrapalhando. Suas heroínas favoritas são, secretamente (ou nem tanto) a Feiticeira Escarlate e a Mulher Gavião e chora quando vê algum famoso na frente.

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