Black Mirror 5×01 – Striking Vipers [Line de Séries]

Com o seu lançamento anual, Black Mirror continua nos levando fundo na narração de auto-descoberta e o peso que as tecnologias tem ao influenciar comportamentos e oferecer a “liberdade”

Depois de uma quarta temporada consideravelmente fraca ao ser comparado a episódios memoráveis da série, Black Mirror volta a todo o vapor com o primeiro episódio da quinta temporada. Striking Vipers tem elenco de peso como Anthony Mackie, Yahya Abdul-Mateen II, Pom Klementieff e Ludi Lin, tem um diretor que entende de videogames o que deu embasamento ao episódio, um cenário belíssimo e um roteiro muito bem trabalhado.

O episódio é sobre dois amigos Danny e Karl (Mackie e Yahya) que se reaproximam após um tempo e resolvem relembrar os tempos de “farra” ao jogar uma versão atualizada de seu videogame preferido, cujo jogo dá nome ao episódio. Na nova versão de Striking Vipers, bem ao estilo de “Playtest”, os jogadores são transferidos para uma realidade virtual onde se tornam os personagens, controlando todas as suas decisões e sentindo tudo que está acontecendo com eles (físico e emocional). Porém, o que era pra ser uma luta se torna mais intenso: na pele de Pom e Ludi, os dois se beijam na primeira vez que entram no jogo. Com um pouco de relutância, eles retornam ao cenário e dão início a encontros sexuais cada vez mais frequentes, o que os afastam dos seus relacionamentos das suas vidas fora do jogo.

E a partir disso, o episódio faz aquilo que Black Mirror sabe fazer de melhor: desperta perguntas em nós e nos próprios personagens sobre o que está acontecendo: afinal, isso torna ambos gays ou bissexuais? Ou eles continuam sendo héteros pois quem está se relacionando são um personagem homem e outro mulher? Ou na verdade isso não muda a orientação sexual de ambos pois quem está tendo um relacionamento são os personagens e não eles?

Quando essa relação começa a causar problemas de afastamento no casamento de Danny com Theo, ele resolve suspender os jogos, se afastando de Karl. Eles se reencontram apenas meses depois, com Karl dizendo que não consegue viver com ninguém o que eles viveram juntos e após ter se declarado em um suposto último jogo, Danny sugere um encontro onde os dois se beijam para comprovarem se aquilo é real, se existe sentimento entre eles. Porém, nenhum dos dois sente nada e acabam brigando e sendo presos. Após Theo ir buscar Danny na delegacia, ele finalmente conta pra ela tudo que está acontecendo. Porém, nós não vemos isso acontecendo, pois quando ele vai falar com ela, a cena corta para os créditos finais do episódio. E, diferentemente das tragédias e finais sombrios que Black Mirror sempre nos proporciona, esse final foi surpreendentemente leve: descobrimos que uma vez ao ano, no dia de aniversário de Danny, com o consentimento de Theo, ele e Karl se encontram para jogar enquanto a mulher sai para ter um “caso de uma noite” com alguém. É o dia de liberdade de ambos.

Confesso que desde o lançamento, já assisti Striking Vipers mais de uma vez pois nenhum episódio de Black Mirror, depois de White Bear tinha me deixado tão presa em uma história e tão surpreendida com o final. O modo como os assuntos foram abordados foi fascinante, as reflexões que o episódio traz também. Chega a ser difícil de definir o que esse episódio foi, mas afinal, se nem o próprio roteiro se prendeu a rótulos, não cabe a mim me prender na hora de escrever sobre ele. Foi gravado em São Paulo então tem o menor cenário urbano possível, os prédios, a badalação, a fotografia cinzenta… Tudo combinou muito bem.

E no fim, acho que a moral da história (pois Black Mirror é como uma fábula, não serve sem moral) é que a internet é um lugar bom justamente por lá você poder se libertar e ser quem você é de verdade, porém também critica pois você deveria ser capaz de fazer isso na vida real, sem precisar de uma realidade virtual pra isso… Ou talvez eu esteja filosófica demais e ambos estavam só querendo um escape da vida tediosa do casamento.

Nota final: 5,0/5,0

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Lais Alves

19 anos, se esforçando pra sobreviver em uma dessas cidades tumultuadas de São Paulo e tentando ser poliglota. Quer muito ser cinéfila, mas o interesse nos blockbusters acaba atrapalhando. Suas heroínas favoritas são, secretamente (ou nem tanto) a Feiticeira Escarlate e a Mulher Gavião e chora quando vê algum famoso na frente.

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