[Crítica] A Coisa Mais Linda do catálogo da Netflix no Brasil

Não pude deixar de fazer essa analogia acima entre o título da matéria e o nome da série, porque Coisa Mais Linda realmente foi a série brasileira mais bonita e mais necessária que a Netflix já lançou.

A trama se passa entre Rio de Janeiro e São Paulo em meados de 1959, próximo á virada da década e segue um grupo de mulheres, perseguindo seus sonhos e encontrando no machismo e na sociedade patriarcal, empecilhos para segui-los. No elenco principal estão Maria Casadevall, Fernanda Vasconcellos, Mel Lisboa e Pathy deJesus como Maria Luisa, Lígia, Theresa e Adélia, respectivamente.

Podemos dizer que a trama é feminista? Sim, sem sombra de dúvidas. E com toda a razão, já que não tem como tratar dos assuntos que ela trouxe sem abordar o feminismo e isso ela faz muito bem: mostra a luta das mulheres, mesmos nas coisas que parecem supérfluas, o sentimento de repressão, a necessidade de se libertar da vida que foi escolhida para nós e começar a viver aquilo que realmente desejamos e os julgamentos e consequências que enfrentamos ao tomar a decisão que é considerada errada aos olhos da sociedade e a série ressalta muito bem que homens não enfrentam essas mesmas represálias. A série faz isso não forçando feminismo ou com mimimi, como alguns gostam de chamar, mas sim retratando as situações reais, de cotidiano. E é assustador pensar que, se a série se passasse hoje, em 2019, as mudanças naquilo que as mulheres sofrem seriam mínimas. E é muito legal ver eles mostrando o feminismo como realmente é e desmitificando algumas coisas, por exemplo: que existem sim mulheres machistas, e que o feminismo não está ai para passar a mão na cabeça de comportamentos errados vindo de mulheres, jamais. Além disso, é interessante ver a série colocar pra valer as mulheres em destaque, ela quer mostrar que as mulheres são as protagonistas, e dá para notar em cortes de cena, no roteiro: toda vez que o foco começa a ser na figura masculina, há uma inserção da personagem feminina para ressaltar esse protagonismo.

A questão do racismo também é muito bem trabalhada, de uma maneira que não tem uma abordagem radical, mas toca aonde tem que chegar. Os contrastes entre a música, as pessoas, os estilos e a moradia entre o morro e a elite carioca. Afinal, por que o samba é do morro e o jazz é da elite? A música é para unir pessoas, não para segregar. Além disso, as dificuldades enfrentadas pelos negros foram muito bem colocadas (destaque para a cena com uma atuação brilhante de Pathy de Jesus onde ela fala para Malu que, se essa está lutando pelo seu direito de trabalhar, ela trabalha desde os 8 anos,7 dias por semana). Isso ressalta que, se uma mulher sofre dificuldades para conquistar seu lugar, uma mulher negra tem 10x mais dificuldades e ainda mais sérias para enfrentar.

A fotografia é sensacional, a paleta de cores ajuda a trazer esse estilo retrô, o figurino é maravilhoso, a estética toda da série e combinada e muito bem apresentada, e a bossa nova que embala a série nos transporta ao Rio dos anos 50. E como não podia deixar de ser, Girl From Ipanema na abertura, dando aquele toque brasileiro. O casting parece que foi feito a dedo, cada papel desenhado para o ator e eles todos deram seu melhor desempenho para essa produção. Os episódios e o direcionamento deles também é bem construído, o roteiro não deixa falhas e a história se encaminha sendo bem contada e evoluindo a capa episódio que passa. Estou encantada, essa era a série que o mundo (sim, digo o mundo porque ela não foi lançada só aqui no Brasil) precisava, é divertida, trata preconceitos com seriedade, é simplesmente sensacional. Então nos fica a pergunta, o final ficou em aberto: teremos continuação ou foi feito dessa maneira para deixar na imaginação dos expectadores?

A única falha que eu não consegui perdoar a Netflix foram a falta de um aviso de gatilho antes de cenas pesadas (principalmente o episódio 3), é necessário esses alertas pois nem sempre a pessoa está com um emocional bom para assistir esse tipo de cena.

Nota final: 5,0/5,0

Sororidade!!

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Lais Alves

19 anos, se esforçando pra sobreviver em uma dessas cidades tumultuadas de São Paulo e tentando ser poliglota. Quer muito ser cinéfila, mas o interesse nos blockbusters acaba atrapalhando. Suas heroínas favoritas são, secretamente (ou nem tanto) a Feiticeira Escarlate e a Mulher Gavião e chora quando vê algum famoso na frente.

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