[Crítica] O Mecanismo – 2ª Temporada

Continuando a retratar a Operação Lava Jato, José Padilha vai além: ele analisa os fatores que contribuíram para a polarização política atualmente vigente no país.

Fazer uma crítica da 2ª temporada de O Mecanismo sem envolver política deve ser uma das coisas mais difíceis que eu já fiz. Para balancear as coisas, eu espero que escrever essa temporada e retratá-la sem tomar lado político também tenha sido complicado para José Padilha. Ele teve sucesso na empreitada dele e espero ter na minha.

A segunda temporada dá continuidade e retrata a operação Lava Jato, com aquele jeito de contar as coisas da maneira que conhecemos: com o efeito dramático utilizado por Padilha, afinal isso é uma série de entretenimento, não um documentário. Os diálogos são feitos com um tom que, eu entendi, como para terem bomba de efeito, a famosa lacração. Coloque uma frase bonita criticando algo, que você terá duas vezes mais palmas que apenas apresentar o problema cru. É possível notar nas insinuações á pedaladas fiscais, nas insinuações do mar de lama cobrir um partido específico, no “corrupto não condena corrupto”, e principalmente no discurso do Gino no depoimento. Padilha está errado em recorrer a isso? Não, afinal, por mais que ele conte historias que tem finalidade além do entretenimento, ele ainda tem que vender a sua arte e pra isso, tem que deixar o público feliz.

Os atores são muito bem colocados, tanto para interpretar personagens reais (alguns são mais difíceis de identificar apenas pela aparência, mas imitam gestos ou manias que fazem com que sejam inconfundíveis), até os personagens originais da série. Selton Mello, mesmo praticamente trabalhando nos bastidores de Caroline Abras, consegue com o jeito quieto de Marco Ruffo transmitir tudo que o personagem está sentindo com apenas olhares. E a dinâmica em cena dele e do Enrique Diaz é espetacular. Mesmo que nessa temporada as cenas de ambos juntos foram reduzidas, aquela do último episódio tem uma tensão tão grande apenas deles conversarem. Não tem nenhuma ação, mesmo assim você não consegue desviar os olhos da tela achando que alguém vai sair dali muito ferido.

Os eventos reais são muito bem representados, com o máximo de veracidade que Padilha pode garantir sem se comprometer: Maria Tereza, a secretária da empreiteira, as brigas de Miller&Bretch, as cenas nas elites privadas que ele não teve acesso a documentos ou relatos para se basear em como aconteceu, e mesmo assim você assiste as cenas e sabe exatamente que aquilo é verídico, e até aquele famoso PowerPoint, que todos sabemos muito bem qual é.

José Padilha entrega mais uma de suas artes raras e magníficas com a segunda temporada de O Mecanismo. A fotografia parece ser sem grandes edições, mostrando as cenas “no crú”. E o roteiro, apesar de muitas vezes pesar na dramaticidade em cima dos personagens e deixar partes da história cansativa, sabe conectar os pontos importantes.

Em um momento delicado, ele conta a sua história de um ponto de vista neutro mas deixa ao telespectador uma pergunta no ar: Algum momento essa operação toda foi realmente livre de ideologias? E o quanto dessa ideologia contribuiu para o cenário político atual? Ele deixa bem claro ao contar a história de quem realmente tem o controle das coisas no país. E a mensagem que Padilha quer passar está bem explícita na música de abertura da série que foi estrategicamente colocada: “se gritar pega ladrão, não fica um”.

Nota final: 4,2/5,0

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Lais Alves

19 anos, se esforçando pra sobreviver em uma dessas cidades tumultuadas de São Paulo e tentando ser poliglota. Quer muito ser cinéfila, mas o interesse nos blockbusters acaba atrapalhando. Suas heroínas favoritas são, secretamente (ou nem tanto) a Feiticeira Escarlate e a Mulher Gavião e chora quando vê algum famoso na frente.

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